História da boneca Susi
A história da boneca Susi começa em 1966, quando a Estrela lançou no Brasil uma boneca-manequim adulta com guarda-roupa vendido à parte — a mesma categoria que a Barbie havia inaugurado nos Estados Unidos em 1959. A diferença é que aqui a Barbie quase não chegava: a política de substituição de importações da época tornava o brinquedo estrangeiro caro e escasso. A Susi não competiu com a americana nas prateleiras brasileiras; por quase duas décadas, ela simplesmente ocupou o lugar dela.
Foi um sucesso de escala rara para a indústria nacional de brinquedos. A Susi atravessou os anos 1960 e 1970 como presente de aniversário e de Natal padrão de várias gerações de meninas, com uma linha de roupas que era relançada temporada após temporada. A fase clássica terminou em 1985. A marca voltou em 1996, com outro rosto, e desde então reaparece de tempos em tempos.
O Brasil de 1966 e por que a Estrela criou a Susi
A Estrela foi fundada em São Paulo em 1937 e, nos anos 1960, já era a maior fabricante de brinquedos do país, com catálogo que ia de jogos de tabuleiro a bonecas de bebê. O que faltava era a categoria nova que estava crescendo no mundo inteiro: a boneca com corpo de adulta, feita para ser vestida e trocada, não para ser embalada no colo.
O contexto econômico explica o resto. Entre os anos 1950 e o fim dos anos 1980, a importação de brinquedos no Brasil foi cercada de tarifas altas e restrições administrativas. O efeito prático é que uma Barbie, quando aparecia, vinha na mala de alguém que tinha viajado. Isso criou um mercado inteiro protegido para quem fabricasse aqui dentro — e a Estrela ocupou esse espaço com a Susi. Vale registrar que essa mesma lógica moldou boa parte da história da boneca no Brasil: as febres nacionais quase sempre nasceram de um produto local ocupando um vazio deixado pelas barreiras à importação.
A fase clássica: 1966 a 1985
O período de 1966 a 1985 é o que os colecionadores chamam de primeira fase, e é onde está quase todo o valor de mercado da Susi hoje. Nessas duas décadas a boneca mudou bastante: alterações no molde do rosto, no acabamento da pintura dos olhos, no tipo de cabelo implantado, na rigidez do plástico do corpo e no grau de articulação. Não é uma boneca única com dezenove anos de produção — é uma sequência de versões que compartilham nome e proporções.
Por isso a datação de uma Susi antiga é feita por comparação, e não por consulta a uma tabela. Não existe um catálogo oficial completo e público da linha; o que existe é o acervo dos colecionadores, com exemplares de procedência conhecida, embalagens preservadas e anúncios de época. A regra prática é comparar o rosto, o corpo e a roupa do seu exemplar com peças datadas por outras pessoas antes de afirmar um ano. Os detalhes dessa leitura estão reunidos no guia da Susi primeira fase.
Um traço que quase todo mundo lembra dessa era é o olhar. As Susis clássicas têm os olhos pintados voltados para o lado, e não para a frente — o que ficou conhecido popularmente como olhar de esguelha. É a marca visual mais imediata da fase, embora não seja, sozinha, prova de originalidade.
O guarda-roupa era o verdadeiro negócio
A Susi seguiu o modelo comercial que sustenta esse tipo de boneca até hoje: a boneca é a plataforma, as roupas são a receita recorrente. Os conjuntos eram vendidos separados, em embalagens próprias, e renovados conforme a moda mudava — miniassaia e vestidos geométricos no fim dos anos 1960, calça boca de sino e estampas psicodélicas nos 1970, ombros estruturados e cores fortes já no começo dos 1980.
Essas peças são, para muito colecionador, mais difíceis de achar do que a boneca em si: roupa de pano se perde, mancha, desbota e some da caixa. Uma peça original, com o acabamento e a etiquetagem da época, muda o preço do conjunto inteiro — assunto detalhado nas roupas da Susi.
1985: a Barbie licenciada encerra a Susi clássica
O fim da primeira fase não veio de queda de vendas nem de desinteresse do público. Veio de uma decisão de portfólio. Nos anos 1980, a Estrela passou a fabricar a Barbie no Brasil sob licença da Mattel — e manter duas bonecas-manequim concorrentes no mesmo catálogo, disputando a mesma criança e o mesmo espaço de gôndola, não fazia sentido comercial. A Susi clássica saiu de linha em 1985.
A ironia é que aquelas Barbies feitas aqui viraram, elas próprias, item de coleção com identidade brasileira, com particularidades de molde, cabelo e embalagem que não existem nas versões americanas. E a relação entre as duas bonecas, que a memória popular costuma resumir mal, é bem menos uma rivalidade de prateleira do que uma sucessão de decisões industriais.
1996 e as retomadas: outra Susi
Em 1996 a Estrela relançou a Susi com um molde de rosto novo, alinhado à estética de boneca dos anos 1990 — traços maiores, expressão mais frontal, maquiagem mais marcada. Não é a mesma boneca com roupa nova: é outro produto usando um nome com trinta anos de memória afetiva embutida. Essa fase teve sua própria clientela e hoje forma um segmento de coleção separado, mais acessível e com muito mais unidades em circulação, tratado em Susi dos anos 90.
Depois disso, a marca voltou em ocasiões pontuais, em geral ligadas a datas comemorativas da própria Susi ou da Estrela, sempre em produções menores e com apelo mais nostálgico do que infantil. É o mesmo movimento que outras marcas brasileiras dos anos 1990 fizeram ao perceber que o público comprador virou adulto.
Ao pesquisar a linha do tempo da Susi, desconfie de listas na internet que apresentam nomes de modelos, códigos de embalagem e tiragens exatas sem indicar a fonte. Grande parte desses dados circula sem qualquer documento por trás. O que se verifica com segurança são as balizas: 1966, o encerramento da fase clássica em 1985 e o relançamento de 1996.
Por que a Susi ainda importa
A Susi é hoje menos um brinquedo e mais um documento. Ela registra o que a indústria brasileira conseguia produzir em cada década, como a moda circulava no país e o que se esperava de uma menina em 1968, em 1975 e em 1983. Também explica um comportamento de mercado: quem compra uma Susi antiga em 2026 quase nunca é uma criança, e sim uma adulta reencontrando um objeto específico da própria infância — a boneca que ela teve, com aquela roupa. Isso empurra os preços de peças completas para cima e é o motor de todo o colecionismo em torno da boneca Susi hoje.
Perguntas frequentes
Quem criou a boneca Susi?
A Susi foi criada e fabricada pela Estrela, indústria brasileira de brinquedos fundada em São Paulo em 1937. Não é obra de um único autor conhecido: foi um projeto interno da empresa, lançado em 1966 para ocupar no Brasil o espaço da boneca-manequim adulta, categoria que aqui ainda não tinha um produto nacional forte.
Em que ano a Susi foi lançada e por quanto tempo ficou em linha?
O lançamento foi em 1966. A fase clássica seguiu até 1985, quando a Estrela passou a fabricar a Barbie sob licença da Mattel e encerrou a linha original. A marca voltou às lojas em 1996, com molde de rosto novo, e teve outras retomadas pontuais depois disso.
A Susi é uma cópia da Barbie?
Não no sentido literal. A Susi nasceu na mesma categoria criada pela Barbie — a boneca-manequim com guarda-roupa vendido à parte —, mas com molde, proporções, rosto e roupas próprios, feitos no Brasil. A semelhança é de conceito e de época, não de peça copiada.
Por que a Susi fez tanto sucesso nos anos 1960 e 1970?
Porque juntou três coisas: a importação de brinquedos era muito restrita, então a Barbie praticamente não chegava às lojas; a Estrela tinha distribuição nacional; e o modelo de negócio das roupas avulsas mantinha a boneca em circulação o ano inteiro, com lançamentos acompanhando a moda de cada temporada.